Colaboração para o UOL
14/10/2022 19h08
O herdeiro e empresário brasileiro Thiago Brennand, que estava foragido desde setembro e havia sido preso ontem nos Emirados Árabes, foi solto, nesta sexta-feira, após pagar fiança. Ele teve que informar endereço fixo e não pode se ausentar do país árabe sem comunicar à Justiça.
Ele se comprometeu a comparecer às audiências sempre que solicitado e irá responder ao processo de extradição em liberdade, segundo informações da TV Globo, confirmadas pelo UOL. O valor da fiança não foi divulgado. A reportagem entrou em contato com a defesa de Thiago Brennand, que informou que não vai se manifestar.

O empresário havia se tornado réu por agressão após ter sido flagrado em vídeo agredindo a modelo Aliny Helena Gomes em uma academia em um shopping de luxo na cidade de São Paulo.
A prisão de Brennand foi feita ontem em um hotel em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes, segundo a Polícia Federal e a Polícia Civil de São Paulo.
Mais cedo, a modelo Aliny Gomes descreveu a prisão como um “alívio”.
A prisão é um apoio maior para todas as pessoas que ainda não falaram, que entraram em contato com a gente, mas que tiveram medo de abrir um processo no Ministério Público. São violências de todos os tipos possíveis.
Aliny Helena Gomes, modelo
Mais cedo, a Promotoria de Porto Feliz denunciou Thiago Brennand também pelos crimes de estupro, cárcere privado, tortura, lesão corporal e coação durante o processo. É a segunda acusação aceita pela Justiça, após o caso da agressão à modelo em que ele já respondia por lesão corporal e corrupção de menores. A acusação diz respeito a uma única vítima, que não teve a identidade divulgada, e que foi submetida a repetidos estupros e teve as iniciais do empresário tatuadas na pele.
O tatuador, que colocou as iniciais de Brennand na vítima a pedido do próprio empresário, também foi denunciado pelos crimes de tortura e lesão corporal gravíssima. Contudo, ainda não há pedido de prisão contra ele.
Apesar de ter sido solto, o empresário segue respondendo aos processos e aguarda o processo de extradição. De acordo com a Polícia Civil de São Paulo, o processo deve durar cerca de 40 dias, quando é esperado que o acusado chegue ao Brasil, quando finalmente será ouvido em depoimento.
Em entrevista ao UOL, a delegada Ivalda Aleixo, da Divisão de Capturas da Polícia Civil de São Paulo, diz que o período de espera até a extradição se justifica em decorrência dos trâmites burocráticos entre os países envolvidos, que conta com a participação da embaixada brasileira nos Emirados Árabes. “Há protocolos internacionais que precisam ser cumpridos”, diz.
O advogado da modelo Aliny Helena Gomes, Márcio Janjacomo, afirmou que não se espantou com a soltura mediante fiança de Brennand. Ele explica que isso faz parte dos trâmites legais de um processo de extradição. Porém, na segunda-feira, ele entrará em contato com o Ministério das relações exteriores e o Ministério da justiça para oferecer todo o apoio para que esse processo ocorra da forma mais rápida possível.
Segundo Janjacomo, no processo de extradição, a pessoa é chamada pelas autoridades e informada que ela não pode viajar para fora do país, que ela tem que se apresentar e encaminhar informações o tempo todo para as delegacias do país requerente. Ou seja, as autoridades brasileiras e as dos Emirados Árabes estarão monitorando o empresário para que ele não fuja.
Isso é mais ou menos assim: outro dia ele estava livre, com o pescoço liberado, e hoje tem um laço no pescoço dele e, com o processo de extradição, vai ser puxado esse laço.
Márcio Janjacomo, advogado de Aliny Gomes
Atualmente em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, o empresário Thiago Brennand, 42, enfrenta uma série de acusações no Brasil. A prisão preventiva dele foi decretada no dia 27 de setembro e foi cumprida no dia 13 de outubro, pela Polícia Federal em atuação conjunta com as autoridades do país árabe. As histórias envolvendo Thiago se tornaram públicas após ele agredir uma modelo em uma academia de luxo em São Paulo, em agosto deste ano.
Após a repercussão do caso, Thiago, que utiliza sobrenome tradicional de Pernambuco, já foi denunciado por outras vítimas pelos crimes estupro, lesão corporal, além de ter medida protetiva da própria família.
Ele tinha deixado o Brasil no dia 4 de outubro e a expectativa era a de que ele retornasse no dia 18 do mesmo mês. Na ocasião, a juíza Erika Soares de Azevedo Mascarenhas, em resposta à denúncia feita pelo Ministério Público de São Paulo, determinou, no dia 9 de setembro, que Thiago retornasse ao Brasil no prazo de 10 dias. No entanto, após o empresário descumprir a ordem, ele teve a prisão preventiva decretada dias depois, no dia 27.
Thiago deve permanecer em Abu Dhabi aguardando os trâmites relativos ao processo de extradição. De acordo com a PF, a prisão foi efetuada em razão do nome do empresário constar na lista da difusão vermelha da Interpol.
O início Câmeras de segurança de uma academia de luxo na cidade de São Paulo flagraram o momento em que a modelo Alinny Helena Gomes foi agredida pelo empresário durante um treino na noite do dia 3 de agosto. Segundo ela, Thiago estava “alterado” e teria pedido para que ela saísse do local, ainda que o estabelecimento estivesse vazio.
Ao UOL, Helena contou que ele bateu com as duas mãos em seu tórax, a empurrou com força, puxou chumaços de seus cabelos e depois cuspiu em seu rosto. O filho do empresário, que treinava com o pai, passou a xingá-la também e a ameaçar quem se aproximasse para ajudar. No boletim de ocorrência registrado na polícia, testemunhas confirmaram a agressão relatada pela modelo.
Conquistador Helena também disse que teria sido orientada por outras mulheres que treinam na academia para se manter afastada do empresário que, segundo elas, “não aceitava o ‘não'” como resposta às suas investidas como “conquistador”.
Após o episódio, duas mulheres afirmaram ao programa “Fantástico”, da TV Globo, que Thiago passou a persegui-las ou ameaçá-las após elas rejeitarem investidas dele.
O advogado da época, Paulo Amador Thomaz da Cunha Bueno, disse que apenas “pessoas maldosas” acreditariam que o empresário seria uma pessoa que se frustraria a não ser correspondido em flertes.
A academia Bodytech rompeu contrato com o suspeito logo após o episódio. Ao todo, oito testemunhas se prontificaram a depor a favor de Helena e a Polícia Civil instaurou um inquérito para investigar Thiago por lesão corporal e injúria.
Durante a investigação sobre o caso da modelo agredida, outras supostas vítimas do empresário começaram a contar suas histórias. O “Fantástico”, da TV Globo, apresentou depoimentos de mulheres, familiares e funcionários de estabelecimentos frequentados por ele no dia 4 de setembro, quase um mês após a agressão contra a modelo Helena.
Denúncias de estupro e cárcere privado Uma mulher, que não quis mostrar o rosto, disse ter sido vítima de cárcere privado, agressões e estupro na casa de Thiago. Os dois tinham iniciado um relacionamento pelas redes sociais e ela decidiu viajar para encontrá-lo em São Paulo. A mulher disse que teve um início “ótimo”, mas passou por momentos de terror na mansão do empresário após negar-lhe acesso ao celular dela.
“Ele tomou o telefone da minha mão, me empurrou no chão, me deu um tapa na cara e me forçou a colocar o código no telefone”, contou. Segundo ela, as agressões continuaram até que ele a teria estuprado. O caso chegou a ser denunciado à polícia pelo irmão dela, mas ela conta que, sob ameaça, teria desmentido a história em depoimento. Ainda conforme o relato, Thiago também divulgou imagens íntimas dos dois para diversos grupos na internet.
A mulher ainda contou que eles teriam ido até São Paulo para jantar, e acabaram em um estúdio de tatuagem, onde ela foi obrigada a fazer uma tatuagem com as inicias de Thiago, que teria dito: “você agora é propriedade minha”.
A investigação policial foi arquivada por falta de provas e o caso foi encerrado em junho deste ano. No relatório, a delegada responsável pelo caso disse que Thiago não tem antecedentes e que nunca foi alvo de processo por uso de armas de fogo, apesar de ter uma coleção delas. A responsável pelo inquérito também questionou a conduta da vítima.
Funcionário de hotel Outra denúncia era de Vitor Machado, que trabalha em um hotel do condomínio onde mora Thiago. Ele disse que foi agredido quando saía do serviço, de moto, por supostamente ter passado “correndo” na porta da casa dele.
O rapaz alega que andava a no máximo 25 km/h e registrou boletim de ocorrência contra o empresário. Ele realizou um exame de corpo de delito no IML (Instituto Médico Legal) de Sorocaba, mas afirma que o laudo “sumiu”. Quase dois meses depois da agressão, e usando fotos do dia, o funcionário fez outro exame. Thiago registrou uma ocorrência contra ele por calúnia.
Técnico de enfermagem O funcionário de um hospital em São Paulo disse que foi chamado de “bosta” e “palhaço” por Thiago que, ao ser respondido, teria dado um soco nele. O trabalhador registrou um boletim de ocorrência por agressão, mas desistiu do processo por achar que perderia.
Cavaleiro Álvaro Affonso de Miranda Neto, o Doda, pediu que legalmente a proibição do empresário de se aproximar dele e da sua família. Segundo o advogado do medalhista olímpico, Thiago ameaçava invadir a hípica do cavaleiro e agredir quem estivesse no caminho.
Em mensagens e ligações, o empresário, que se diz faixa preta de jiu-jitsu, enaltecia sua própria habilidade como lutador. Em um trecho mostrado pelo Fantástico, Thiago fala para Doda que está “vestindo a roupa” e que vai “bater na sua cara”
Caixão na porta de casa Primo de primeiro grau de Thiago, Jason Vieira conta que o empresário já mandou um caixão e uma coroa de flores para a porta de sua casa com a mensagem: “Jason do câncer, cancinho [sic], descanse em paz”. O “apelido”, seria uma referência ao câncer que o homem trata. “Já tá todo mundo sabendo da metástase, ô cancinho. Que pena, hein? Parece ferrugem no teu corpo, né?”, diz Thiago em áudio veiculado pelo Fantástico.
No mesmo dia da exibição do programa, Thiago Brennand deixou o Brasil. Ele embarcou horas antes de ser denunciado pelo MPSP (Ministério Público de São Paulo) por lesão corporal e corrupção de menores pelo caso da agressão na academia. A viagem de Thiago Vieira ao exterior foi confirmada ao TAB por fontes da Polícia Federal. O empresário passou pela imigração à 0h10 no dia 4 de setembro rumo à Dubai, nos Emirados Árabes, antes das novas denúncias contra ele irem ao ar. A expectativa era a de que ele retornasse no dia 18 de outubro.
Reabertura Posteriormente naquela semana, a Justiça reabriu o caso contra a mulher que foi estuprada, mantida em cárcere privado e forçada a fazer uma tatuagem. O inquérito foi reaberto por um período de 30 dias com base em requerimento apresentado pelo MP-SP, conforme decisão do juiz Jorge Panserini, da 1ª Vara Criminal de Porto Feliz.
Os advogados de Thiago Brennand disseram que ele nunca forçou as parceiras a terem relações sexuais sem preservativo, e que sempre houve respeito, limites e que as relações eram consensuais. Sobre as acusações de estupro e cárcere privado, disseram que a história foi “rigorosamente investigada pela polícia”, que o MP pediu o arquivamento do caso e que a Justiça acatou.
Proibição A juíza Erika Soares de Azevedo Mascarenhas, em resposta à denúncia feita pelo Ministério Público de São Paulo, determinou no dia 9 de setembro que Thiago retornasse ao Brasil no prazo de 10 dias. Além de determinar a volta de Thiago ao Brasil, a juíza também proibiu que ele saia do país “sem prévia autorização judicial” e que frequente “academias e/ou estabelecimentos desportivos similares”.
Thiago, no entanto, não retornou. Até o momento, o paradeiro exato do empresário é desconhecido, mas acredita-se que ele esteja nos Emirados Árabes.
Uma outra história envolvendo o próprio filho de Thiago surgiu em meio às polêmicas. Em 2020, o empresário foi alvo de um inquérito por agressão contra o garoto, de quem ele tem a guarda desde criança. Na época com 14 anos, o rapaz relatou em depoimento à Delegacia de Polícia de Crimes contra Criança e Adolescente, em Pernambuco, uma série de maus-tratos por parte do pai.
O menino foi levado à polícia pela mãe, que mora no Recife. Ele fugiu de São Paulo após ser agredido por Thiago. Segundo o adolescente, desde os quatro anos, ele apanhava do pai, “mesmo que fosse por besteira”. Os episódios, detalhou, incluíam agressão com objetos com fio de carregador do celular, corda, galho de árvore, baqueta de bateria e cabides de roupa.
Dois dias depois do depoimento, em 17 de abril, o adolescente voltou à delegacia e desmentiu-se: disse que as marcas no corpo eram “outras coisas” e pediu para “alterar tudo” no depoimento. “Foi mais um ato de rebeldia”, explicou-se. Thiago Vieira negou as agressões em depoimento e o inquérito foi arquivado.
Exclusão do núcleo familiar Também durante o início de setembro, um integrante da família de Thiago afirmou que nenhum dos 38 primos dos Fernandes Vieira fala com ele. Pais e os irmãos também não têm mais contato.
O desgaste da relação levou a família a antecipar a parte do filho na herança, há 15 anos, e a pedir uma medida protetiva que proíbe qualquer contato.
No dia 9 de setembro, após as denúncias do “Fantástico”, o Exército suspendeu o certificado de registro de CAC (caçadores, atiradores e colecionadores) de Thiago Brennand. A informação foi divulgada pelo mesmo programa de televisão.
Na ocasião, a polícia cumpriu mandados de busca e apreensão contra o empresário em um condomínio de luxo, em Porto Feliz, interior paulista.
A operação foi realizada no contexto do inquérito aberto pelo 15º Distrito Policial da capital para apurar as agressões contra a modelo. Os policiais encontraram uma mala fechada com cadeado de segredo em que havia 54 acessórios de armas — que serviam para fuzis e rifles.
Ao todo foram listadas peças como lunetas de longo alcance, mira a laser e dispositivos de correção de mira, mas não foram localizadas armas e munições. “A informação é que ele teria guardado algumas armas aqui. (…) Essas lunetas aqui são pra fuzis, pra rifles que ele tem”, dizem agentes nas gravações veiculadas pelo “Fantástico”.
Em entrevista, o delegado Carlos Cesar Rodrigues afirmou ser “muito estranho guardar acessórios para armas de fogo na cocheira dos cavalos”. “Na minha opinião ele estava escondendo esse material naquele local. Tudo leva a crer tratar-se de origem ilícita, desse material”, completou. Segundo a emissora, o homem vai responder a um novo inquérito policial.
Dias após a divulgação do caso, o telejornal “SP1”, da TV Globo, exibiu uma reportagem no dia 16 de setembro que informou que Thiago era investigado por agredir outras 11 mulheres. Entre as novas vítimas, 10 dizem ter sido estupradas, sendo que duas relataram que o agressor tatuou suas iniciais nelas. Os crimes teriam ocorrido entre 2017 e 2022, segundo documentos aos quais a Folha teve acesso.
O Ministério Público informou estar investigando as novas denúncias, e as informações estão sob sigilo.
No dia 21 de setembro, o escritório Cavalcanti Sion Advogados deixou a defesa do empresário Thiago. A saída foi potencializada pelas novas denúncias de crimes sexuais contra o empresário. O Cavalcanti Sion, dirigido pelas advogadas Dora Cavalcanti e Paula Sion, tem uma equipe formada predominantemente por mulheres.
A assessoria de imprensa do escritório apontou que, agora, Thiago é representado por dois escritórios: Alves de Oliveira e Salles Vanni, de São Paulo, e Carlos Barros e Gustavo Rocha Advocacia Criminal, do Recife. Conforme a assessoria, os dois escritórios já representavam o cliente anteriormente. Os motivos da saída do Cavalcanti Sion não foram informados.
A juíza Erika Soares de Azevedo Mascarenhas, responsável pelo decreto de prisão preventiva contra Thiago, afirmou que ele havia enviado um um e-mail “substancialmente ameaçador” ao Ministério Público, segundo informou o colunista do UOL Rogério Gentile. O relato estava na própria decisão da magistrada, publicado no dia 26 de setembro.
Na mensagem, segundo a ela, o empresário reclama do fato de uma promotora ter errado o seu nome. “V.Exa. escreveu meu nome de maneira triplamente errada, tão errada que aparenta ter sido propositadamente errada. Não posso me furtar de registrar que a impressão que o referido erro deixou, pela sua forma, é que teve a função de paliar um embuste”, disse ele.
“É como se vestisse a função de ocultar o imo pessoal daquele esquete, como se meu nome fosse apenas mais um nome. Permanece a questão: quem, por acidente de leitura, ou memória, transformaria Thiago Antonio Brennand Tavares da Silva Fernandes Vieira em ‘Tiago Brennand da Silva Fernandes’?”
Para a juíza, a “ousada postura adotada pelo réu evidencia sua predisposição a coagir terceiros e a interferir no regular trâmite da ação penal, o que reforça a necessidade de se decretar sua prisão preventiva”.
O processo corre sob segredo de Justiça.
A Justiça de São Paulo decretou a prisão preventiva de Thiago no dia 27 de setembro. Com o pedido, ele passou a ser considerado foragido da Justiça e teve o nome incluído na lista de procurados pela Interpol. A partir daí, qualquer país signatário de tratados de extradição poderia enviá-lo de volta ao Brasil.
Em novembro do ano passado, os Emirados Árabes, para onde o empresário viajou, assinou um acordo de extradição com o governo brasileiro.


No dia 13 de outubro, a Polícia Federal prendeu o empresário Thiago Brennand em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. A PF, que atua junto à Interpol, informou que a ação foi realizada em conjunto com as autoridades de polícia do país árabe.
Thiago deve permanecer em Abu Dhabi aguardando os trâmites relativos ao processo de extradição. De acordo com a PF, a prisão foi efetuada em razão do nome do empresário constar na lista da difusão vermelha da Interpol.
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