Do UOL, em São Paulo
15/10/2022 04h00
Membros do CEU (Centro Espiritualista de Umbanda) Estrela Guia disseram ter sido intimidados por policiais militares durante distribuição de brinquedos, doces, sucos, água e cobertores na última quarta-feira (12). A ação humanitária, em comemoração ao Dia das Crianças, aconteceu na região do Pátio do Colégio, no centro da cidade de São Paulo.
Segundo Denisson D’Angiles, 46, pai de santo responsável pela entrega dos itens, quatro policiais militares abordaram seu grupo e disseram que eles estavam errados porque as pessoas em situação de rua não mereciam receber os itens. O religioso denunciou a abordagem à Ouvidoria das Polícias, que cobrou providências da PM (Polícia Militar).

Distribuição de brinquedos e doces. Desde o começo da pandemia da covid-19, D’Angiles sai de casa todos os dias para doar alimentos e cobertores para pessoas em situação de rua. Normalmente, a ação humanitária acontece durante a madrugada, mas, no Dia das Crianças aconteceu pela tarde.
Era por volta das 17h quando o grupo do pai de santo realizava a entrega dos itens. Eles estavam com trajes religiosos da umbanda: vestidos de branco e com as guias. Mãe Kelly D’Angiles, 49, esposa de Denisson, e outras pessoas do terreiro faziam parte do grupo de ajuda humanitária.
Quando foram abordados, já haviam recolhido tudo e entrado no veículo Kombi por causa da forte chuva que caía na região.
Como foi a ação dos PMs? Segundo o pai de santo, na mesma tarde, um outro grupo religioso, da igreja evangélica, realizava a distribuição de marmitas de comidas, mas só o grupo vinculado a religião de matriz africana foi abordado.
“Entramos no carro e fomos surpreendidos por quatro policiais militares batendo na porta e empunhando armas”, relatou pai Denisson em entrevista ao UOL Notícias.
Surpreso, o pai de santo disse que desceu do veículo para se apresentar como responsável pela distribuição. “O policial pediu, de forma ríspida, meu documento. Aí começou a puxar meu histórico”, contou.
Sem a gente questionar nada, um dos policias falou: ‘Vocês estão errados de fazer isso, vocês não devem alimentar quem está na rua. Essas pessoas não merecem, essas crianças não merecem’
Denisson D’Angiles, pai de santo

Na sequência, ainda de acordo com o relato do religioso, os policiais alegaram que as pessoas em situação de rua jogaram as marmitas neles. O pai de santo afirma que as marmitas foram entregues pelo outro grupo religioso, que era conduzido por um pastor.
Os policiais, segundo Denisson, também acusaram o grupo de sujar a rua. “Eles ficaram falando: ‘Você está vendo essa sujeira que está aqui no chão? Foram vocês que provocaram isso, vocês que são os culpados disso aqui’. E aí eu fui falar que íamos recolher, mesmo não sendo nossa obrigação, nem alimentar a população nem limpar a rua, que são obrigações do Estado, e ele me mandou calar a boca”.
O pai de santo alega que ele, a esposa e seus filhos espirituais, como chama as pessoas que frequentam o terreiro, ficaram em silêncio durante a abordagem da PM. Mãe Kelly foi a única do grupo que falou com os PMs, repetindo “desculpa”.
O que diz a PM? Questionada, a PM informou que “toda e qualquer ação dos nossos policiais” é vista sob a ótica da “legalidade e excelência” e que, caso realmente o fato tenha acontecido, “uma apuração competente será feita, dentro dos trâmites legais”.
A sensação dos religiosos. O pai de santo afirmou que os policiais tinham “ódio no olhar”. “Eu vi o ódio no olhar deles. Grande parte das pessoas enxerga nossos irmãos que vivem pela rua como bandidos. Mas eles nunca nos fizeram nada. E tudo que a gente espera é ser respeitado como cidadão e como religioso”.
Para o religioso, os policiais agiram por preconceito. “O que essas pessoas fizeram é um ato de intolerância religiosa“.
Esse mesmo trabalho que estes policiais acham errado, a ONU enxerga como trabalho humanitário. Muito se fala em liberdade religiosa, mas para quem é essa liberdade?
Denisson D’Angiles, pai de santo

Desde março de 2022, uma lei estadual, aprovada pela Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo), proíbe e prevê multa para “todo o tipo de intolerância religiosa”.
Religiosos estão amedrontados. Na última quinta-feira (13), foi a primeira vez, desde março de 2020, que o pai de santo não realizou distribuição de alimentos e cobertores para as pessoas em situação de rua.
“Muitos filhos espirituais ficaram amedrontados para voltar para as ruas. Mas vamos continuar. Nos abastecemos de força dos orixás e entidades espirituais para continuar”, afirmou pai Denisson.
Denúncia na Ouvidoria das Polícias. No dia seguinte da abordagem truculenta, os religiosos se encontraram com Elizeu Soares Lopes, ouvidor das Polícias de São Paulo.
Em entrevista ao UOL Notícias, o ouvidor afirmou que ouviu atentamente a denúncia do pai Denisson, mãe Kelly e outra integrante do terreiro, e solicitou a identificação dos policiais e a apuração dos fatos à Corregedoria da Polícia Militar.
“De acordo com o relato, o ato foi preconceituoso, porque eles estavam realizando a distribuição, mas outro grupo religioso também. Não tinha motivo para essa abordagem. Foi um fato lamentável e, por isso, solicitamos a apuração da conduta dos policiais”, disse o ouvidor.
Além da apuração da conduta dessa ação, Elizeu afirmou que solicitará uma reunião com o comando da Polícia Militar de São Paulo, juntamente com lideranças religiosas, para discutir “de forma mais ampla e política” a conduta de PMs em relação às religiões de matrizes africanas.
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