Notícias do conflito entre Rússia e Ucrânia
14/10/2022 10h04Atualizada em 14/10/2022 10h18
Os estupros e as agressões sexuais atribuídas às forças russas na Ucrânia constituem “uma estratégia militar” e uma “tática deliberada para desumanizar as vítimas”, afirmou a representante especial da ONU sobre Violência Sexual em Conflitos, Pramila Patten.
“Todos os indícios estão lá”, disse Patten em uma entrevista à AFP em Paris, onde assinou na quinta-feira (13) um acordo com a ONG Bibliotecas Sem Fronteiras para apoiar as vítimas de agressões sexuais durante conflitos.

“Quando mulheres e meninas são sequestradas durante dias e estupradas, quando se começa a violentar meninos e homens, quando vemos uma série de casos de mutilações de órgãos genitais, quando você ouve os depoimentos de mulheres que falam de soldados russos que usam viagra, trata-se claramente de uma estratégia militar”, afirmou. “E quando as vítimas falam sobre o que foi dito durante os estupros, está claro que é uma tática deliberada para desumanizar as vítimas”, acrescenta a advogada anglo-mauriciana de 64 anos, representante especial da ONU desde 2017.
Patten destaca que os primeiros casos foram relatados “três dias após o início da invasão da Ucrânia”, em 24 de fevereiro. Desde então, a ONU verificou “mais de 100” ocorrências.
Mas os casos denunciados “são apenas a ponta do iceberg”, afirma a advogada. “É muito complicado ter estatísticas confiáveis durante um conflito ativo. Os números nunca refletirão a realidade, porque a violência sexual é um crime silencioso, o menos denunciado e o menos condenado”, ressalta Patten. Isso acontece, segundo ela, pelo medo de represálias e de estigmatização das vítimas, que são principalmente mulheres e meninas.
Um relatório divulgado no fim de setembro por uma comissão de investigação internacional independente, criada a pedido do Conselho de Segurança das Nações Unidas, confirmou “crimes contra a humanidade cometidos pelas forças russas”, recorda.
“De acordo com os depoimentos, a idade das vítimas de violência sexual vai dos 4 anos aos 82 anos. Há muitos casos de violência sexual contra crianças, que são estupradas, torturadas e sequestradas”, afirma Patten. “Minha luta contra a violência sexual é um verdadeiro combate contra a impunidade”, insiste a advogada.
Patten disse que sua visita à Ucrânia em maio pretendia “enviar um sinal forte às vítimas, afirmar que estávamos ao lado delas e pedir que quebrassem o silêncio”. Mas ela também espera ter enviado um recado aos estupradores: “O mundo está observando (vocês) e violentar uma mulher ou uma menina, um homem ou um menino, terá consequências”, acrescentou.
O estupro como arma de guerra sempre existiu em conflitos, da Bósnia à República Democrática do Congo (RDC), mas Patten considera que a guerra na Ucrânia representa uma “tomada de consciência” internacional sobre esse crime. “Agora, existe uma vontade política de combater a impunidade e um consenso de que o estupro é usado como uma tática militar, uma tática de terror”, analisa.
“É porque acontece no coração da Europa? Talvez a resposta esteja aí”, acrescenta a representante da ONU, com a esperança de que a Ucrânia não ofusque os demais conflitos. “Considero muito positivo o interesse na questão da violência sexual vinculada aos conflitos, que sempre foi considerada inevitável, como um dano colateral, uma questão cultural. Mas isso é um crime”, insiste.
Outra preocupação para a representante das Nações Unidas é o risco de tráfico de pessoas. “As mulheres, as meninas e as crianças que fugiram da Ucrânia são muito vulneráveis e, para os predadores, o que está acontecendo neste país não é uma tragédia, e sim uma oportunidade. O tráfico de pessoas é um crime invisível, mas é uma grande crise”, alerta.
Desde que a Rússia iniciou a invasão da Ucrânia em 24 de fevereiro, mais de 7,6 milhões de ucranianos procuraram refúgio em outros países da Europa.
(Com informações da AFP)
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