Do UOL, em São Paulo
15/10/2022 04h00Atualizada em 15/10/2022 21h26
A Prefeitura de Ilha Comprida recolheu ontem o “objeto misterioso” que apareceu em uma praia na terça-feira (11). O item ficará em um local de descarte de materiais específico até que se identifique a melhor destinação dele, informou o município. Segundo um especialista ouvido pelo UOL, o objeto é mais um dos fardos de um navio nazista que naufragou ainda na época da Segunda Guerra Mundial.
O surgimento do objeto na praia instigou a cidade nesta semana. A moradora Fátima Bairrada foi uma das pessoas que pode observá-lo ainda na areia. Ao UOL, ela contou que viu o objeto quando fazia uma caminhada acompanhada da mulher e de uma vizinha. “Como eu gosto muito de tirar foto, a gente se aproximou. Quando estávamos chegando mais perto, vimos que parecia um pacote, ou cobertores dobrados. Dava até para ver as fibras. A gente não tocou nele de imediato, porque ficamos com medo”, relatou ela.

Segundo Fátima, as pessoas que estavam na praia caminhavam desviando do fardo. Ela então agarrou um galho para poder movimentá-lo. “Vi que se tratava de algum tipo de borracha”, relata. Ao lado da mulher e da amiga, as três moradoras tentaram retirar o objeto da praia, preocupadas que ele pudesse retornar ao mar e prejudicar os animais marinhos. “Só que era muito pesado, acho que tinha uns 80 kg. A gente não conseguiu tirar”, relata.
No dia seguinte, Fátima conta que retornou ao local e viu que o objeto havia sido tocado por outras pessoas. “Tinha alguns pedaços da fibra arracados. Foi aí que a gente viu que realmente se tratava de um objeto de borracha, que tava cheio de crustáceos. Dá para saber que tá no mar há muito tempo pela quantidade de crustáceos e pelo jeito que eles estavam grudados”. A moradora afirma ter acionado a Prefeitura para a remoção do objeto da praia.
Ao UOL, o pesquisador Carlos Teixeira, do Instituto de Ciências do Mar, da UFC, explicou que o objeto de borracha é um fardo de um navio nazista, naufragado ainda durante a Segunda Guerra Mundial. Eles podem chegar até 200 kg e já viajaram por diversas regiões da costa brasileira.
O oceanógrafo faz parte de um estudo comandado por pesquisadores da UFC (Universidade Federal do Ceará) e da Ufal (Universidade Federal de Alagoas) que vem apurando o surgimento destes objetos desde 2018.
“Essa carga é um fardo, como se fosse uma massa folhada de borrachada. Essa era a forma em que a borracha era transportada na Segunda Guerra Mundial”, afirma. Segundo o pesquisador, a borracha tem uma densidade baixa e por isso acaba boiando até a costa brasileira, mesmo que o naufrágio tenha ocorrido a quilômetros de distância.
Os primeiros fardos foram identificados em 2019, um ano após eles chegarem na costa de Sergipe. Na época, os pesquisadores descobriram que as peças, até então misteriosas, eram oriundas do naufrágio do navio alemão SS Rio Grande, afundado pela Marinha dos Estados Unidos em 1944, a 800 km do Recife em uma linha reta.
No entanto, em 2021, uma nova leva de fardos começou a surgir na costa brasileira. Depois de uma série de pesquisas, os cientistas identificaram que se tratava de outro navio naufragado, também pela Marinha dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial — o SS Weserland. Este último, por sua vez, estava um pouco mais distante: “a 1,4 mil km da costa brasileira e a 150 km ao sul do Recife”, explica o pesquisador. O material tinha inscrições em japonês, uma característica que não foi observada nos fardos do outro navio.
“Acredita-se que essa carga que está chegando agora em São Paulo e Rio Grande do Sul seja desse segundo naufrágio”, explica ele, informando ainda que já foram identificados fardos em praias de outros estados, como Mostardas (RS).
“Eles são trazidos em direção à costa até a quebra da plataforma continental por uma corrente marinha, ao Sul Equatorial. Ela bifurca e parte vai para o Norte e outra parte para o Sul, margeando a quebra da plataforma até o Rio Grande do Sul. São essas correntes que estariam levando os fardos que, em dado momento, são transportados para a costa”.
Teixeira ainda explica que os pesquisadores trabalham com duas hipóteses para explicar o porquê os fardos estejam chegando apenas agora na costa brasileira, uma vez que já estão no mar há mais de décadas. A primeira delas é a corrosão natural. “Os naufrágios estão enferrujando e aí esse material vem para superfície”, diz ele.
A segunda, por sua vez, é pela própria ação humana. “Existem empresas especializadas em resgate de metais. Aqui, não estamos falando de ouro nem prata, mas de titânio, cobre, estanho, materiais que estavam dentro desses naufrágios que, atualmente, são avaliados em US$ 30 a 50 milhões. Essas empresas vão lá com robôs especializados para fazer o resgate desse material e acabam trazendo os fardos para superfície”, diz ele.
No primeiro semestre de 2021, houve um salto no preço de estanho no mercado internacional, o que levanta ainda mais a suspeita pelas buscas da carga no navio naufragado.
Teixeira afirma que o material não tem perigo químico, no entanto, pelo fato de estar há muito tempo submerso, não é recomendado o toque.
“As pessoas devem tomar cuidado porque sempre pode ter uma bactéria pelo fato de ter ficado tanto tempo na água. Além disso, as cracas, que são esses crustáceos, cortam muito. Por isso, é necessário evitar ficar mexendo no material”, diz ele. O pesquisador ainda afirma que o material é um poluente, que pode ir se desfazendo igual ao plástico e, consequentemente, ser ingerido por animais.
Além do Brasil, já houve relatos de presença dos fardos nos estados norte-americanos da Flórida e do Texas. Para Teixeira, é provável que a carga também chegue em países como Uruguai e Argentina, devido à ação das correntes.
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