Uma iniciativa do UOL para checagem e esclarecimento de fatos
Do UOL, em São Paulo
16/10/2022 04h04
Em vídeo de entrevista ao New York Times, em 2016, que viralizou nas redes nas últimas semanas, Jair Bolsonaro, à época ainda deputado federal, disse que quase comeu um indígena em Surucucu, e que “eles cozinham o índio, é a cultura deles”.
“Cozinha por 2, 3 dias e come com banana”, disse o hoje presidente e candidato à reeleição pelo PL. Por causa da viralização do vídeo, os termos “Bolsonaro canibal” e “Bolsonaro canibalismo” ficaram entre os mais buscados do Google relacionados ao candidato.

Mas não é verdade que os indígenas ianomâmis praticam canibalismo. Bolsonaro distorceu informações sobre o ritual fúnebre do povo ianomâmi, que vive em Surucucu (RR).
A TI (Terra indígena) Ianomâmi é a maior terra indígena do país. Localizada em Roraima, tem 9665 mil hectares e foi homologada em 1992. O povo indígena ianomâmi também habita parte da Venezuela.
O que é o Reahu. O ritual a que Bolsonaro se refere é um ritual fúnebre, sagrado para o povo ianomâmi. Chamado de Reahu, o ritual foi descrito por Davi Kopenawa, xamã ianomâmi, no livro “A Queda do Céu”, escrito com o antropólogo Bruce Albert.
O ritual fúnebre, que dura vários dias, envolvia a cremação do corpo do falecido e o consumo das cinzas — e não da carne — em mingau de banana-da-terra. Mas segundo o filho de Davi Kopenawa, Dário Kopenawa, os ianomâmi já não consomem mais as cinzas com mingau e sim as enterram em uma celebração coletiva.
“O que meu pai fala em A Queda do Céu é um processo de muitos anos. Hoje a gente não faz mais isso. A gente crema primeiro, pila as cinzas bem fininho e depois derrama na terra. A gente não faz mais esse processo de mistura com mingau de banana”
Dário Kopenawa, vice-presidente da Hutukara Associação Ianomâmi
Como é o Reahu. “Ritual é um tipo sagrado. Nós não falamos do nosso parente que faleceu, porque é proibido, é um tipo de segurança para ele. Então, convidamos várias pessoas, parentes, irmãos e choramos para matar a tristeza. É uma dor muito forte. Depois de um ano ou dois, a gente começa a fazer a festa. A gente crema o corpo dele e coloca em uma cabaça as cinzas. Com segurança para ele descansar. E depois a gente dá uma festa de comemoração e despedida. Por fim, enterramos as cinzas dele. Quando a gente enterra é uma grande comemoração, mas a gente também relembra e chora de novo. É uma despedida”, conta Dário.
Preconceito. Para o vice-presidente da Hutukara, as falas de Bolsonaro associando os ianomâmi da região de Surucucu ao canibalismo são preconceituosas: “É preconceito, discriminação à minha cultura, um desrespeito muito grande. Ele citou a comunidade de Surucucu, ele não conhece os ianomâmi. Então isso que ele chamou de canibalismo é um tipo de preconceito”.
Lula usou vídeo na campanha e TSE mandou retirar. O candidato do PT à presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva veiculou o vídeo de Bolsonaro, seu adversário no segundo turno, associando-o à prática de canibalismo como peça de campanha. Atendendo a pedido da campanha de Bolsonaro, o ministro do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) Paulo Tarso Sanseverino determinou a remoção do conteúdo alegando descontextualização. A decisão foi confirmada em plenário.
Pronunciamento da Apib. A Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) se pronunciou duas vezes sobre as falas de Bolsonaro.
No dia 9 de outubro, a organização disse que o presidente espalhava desinformação e preconceito contra rituais indígenas. Nesta quinta-feira (13), a articulação dos povos indígenas se manifestou novamente dizendo que acionou o TSE em manifestação contra o presidente.
“O conteúdo da entrevista e as alegações da defesa do candidato são absolutamente mentirosas e ofensivas à cultura e à história do Povo Yanomami”, afirma a Apib.
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