Colaboração para o UOL
22/09/2022 04h00Atualizada em 23/09/2022 17h11
O presidente russo, Vladimir Putin, sugeriu nesta quarta-feira (21) que pode usar armas nucleares contra países inimigos, disse ter equipamentos de destruição mais modernos do que a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e ameaçou empregar “todos os meios disponíveis” para proteger a Rússia. A declaração ocorre sete meses após o início da guerra na Ucrânia.
O ex-presidente da Rússia e atual vice-presidente do Conselho de Segurança do país, Dimitri Medvedev, também afirmou que a Rússia está “pronta” para usar armas nucleares, caso países da Europa ou integrantes da Otan ataquem a Crimeia ou outros territórios russos. A Rússia ainda anunciou a mobilização de milhares de reservistas a primeira desse porte desde a Segunda Guerra Mundial.

A escalada das ameaças aumenta o temor de um conflito nuclear com potencial para destruir todo o planeta. Outros países também contam com arsenais de destruição total.
Testes com armas nucleares para exibir poderio militar de alta destruição já foram feitos pelo governo Biden, pela Coreia do Norte e pela China. EUA e a Rússia têm bombas atômicas que podem ser acionadas a qualquer momento, mas não estão sozinhos.
Atualmente, nove países no mundo têm esse tipo de arma. São eles:
Apenas os cinco primeiros podem oficialmente ter esse armamento. Isso foi definido em 1968, com a assinatura do TNP (Tratado de Não-Proliferação Nuclear). Os cinco países em questão foram os vencedores da Segunda Guerra Mundial e são membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas).

O poderio nuclear russo foi exibido em 2021, na celebração pela vitória na Segunda Guerra - Mikhail Svetlov/Getty Images - Mikhail Svetlov/Getty Images

O poderio nuclear russo foi exibido em 2021, na celebração pela vitória na Segunda Guerra

Imagem: Mikhail Svetlov/Getty Images

Um levantamento feito em fevereiro deste ano e divulgado pelo UOL mostrou que EUA e Rússia possuem 11.527 ogivas nucleares. São 5.977 no lado russo e 5.550 no lado norte-americano.
Juntos, os dois países controlam mais de 90% do total de bombas atômicas existentes no mundo. “Isso é o suficiente para destruir toda a vida na Terra várias vezes”, resumiu o pesquisador de rejeitos radioativos Júlio Oliveira, ao UOL News.
Os governos não divulgam os locais onde estão escondidas as ogivas nucleares. No entanto, segundo especialistas, a maior parte está instalada em submarinos, o que dificulta a sua localização.
Apesar de a Rússia ter, em tese, mais ogivas, os EUA mantêm o arsenal mais bem distribuído ao redor do mundo. De acordo com a FAS (Federação de Cientistas Americanos) e o Centro de Controle de Não Proliferação de Armas, os EUA têm cem bombas atômicas espalhadas pela Europa.

Armas nucleares dos EUA na Europa - Carol Malavolta/UOL - Carol Malavolta/UOL

Imagem: Carol Malavolta/UOL

Esse tema já foi abordado pelo governo russo durante a guerra na Ucrânia. Em março, em discurso na Conferência de Desarmamento das Nações Unidas, o chanceler Sergey Lavrov disse que a presença de armas nucleares norte-americanas em solo europeu é “inaceitável”. E que chegou “a hora de serem retiradas”.
No pronunciamento desta quarta-feira, Putin ameaçou revidar as chantagens de uso de armas nucleares feitas por outros países. “Os que tentarem nos chantagear com armas nucleares devem saber que os ventos podem se virar na direção deles”, afirmou o presidente russo. “Não estou blefando”, completou.
O lado norte-americano sustenta, por sua vez, que o posicionamento das armas em outros países é estratégico para a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e que se trata de uma “defesa coletiva” para os países que integram a aliança militar.
“Para garantir a segurança de seus aliados, os EUA espalharam um número limitado de armas B61 em determinados locais da Europa; as armas estão sob custódia e controle dos EUA em total conformidade com o NPT (Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, na sigla em inglês)”, diz trecho do comunicado divulgado pela Otan.
O Arquivo de Armas Nucleares descreve as B61 como “uma família de armamentos”. O primeiro modelo foi utilizado em 1968. Desde então, todas as bombas desta linha apresentam o mesmo design e são elaboradas a partir da mesma tecnologia.
A potência delas depende do modelo, que pode variar entre 0,1 kt (quilotons) e 400 kt, segundo a FAS. Para ilustrar a dimensão do alcance dos armamentos, a bomba que devastou Hiroshima em 1945 tinha 16 kt. Um quiloton equivale a mil toneladas de explosivos do tipo TNT.
De acordo com a NNSA (Administração Nacional de Segurança Nuclear), agência ligada ao Departamento de Energia dos EUA, há quatro modelos de bombas B61 disponíveis em estoque atualmente: 3, 4, 7 e 11. Os modelos que se encontram na Europa são dos tipos 3 e 4, de potência mínima de 0,3 kt e máxima de 170 kt (no caso da B61-3) e 50 kt (no caso da B61-4).
A forma como vão explodir depende da altura de queda, já que foram projetadas para serem lançadas por aeronaves. Em caso de altitudes elevadas, a explosão ocorre ainda em queda livre, ou com a velocidade retardada pelo acionamento de paraquedas. Já a uma curta distância do solo, a explosão pode ocorrer por contato direto com a superfície.
Segundo a NNSA, até 2025 os modelos que se encontram na Europa devem ser substituídos por bombas B61-12, que apresentam potencial semelhante às anteriores, mas são mais modernas e possuem maior precisão para acertar alvos.
O medo de uma guerra nuclear não é algo novo e remonta à Guerra Fria, período pós-Segunda Guerra Mundial em que os EUA e a antiga União Soviética disputavam o controle econômico e armamentista mundial. Em diversos momentos, como na Crise dos Mísseis em Cuba e na Turquia, na década de 1960, a deflagração quase ocorreu.
Agora, mesmo com tantas ogivas sob controle de cada país, uma guerra nuclear é considerada improvável.
“Uma guerra nuclear é altamente improvável. Isso não significa, no entanto, que um conflito armado convencional entre Estados específicos não venha a acontecer. Se de fato houver o uso da força, é provável que seja por meio não atômico”, afirma o professor Vitelio Brustolin, pesquisador da Universidade Harvard e professor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense.
O professor explica que não é interessante para os países aumentarem a produção de armas nucleares. “Depois de um certo ponto, o aumento da quantidade implica em redundância, pois o arsenal conhecido atualmente já seria capaz de destruir o planeta”, ressalta Brustolin.
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